5 de mar de 2007

Qual o seu maior trauma?

por Eduardo Latta Existe mais do que um? Foi resolvido no divã? Nada é tão sério assim? Sei lá... só sei que existem...

Os traumas são erigidos pelos traiçoeiros tijolos do favoritismo, da certeza, e muitas vezes soberba. Você simplesmente acorda num domingão, por exemplo, e tem a certeza que tudo vai acontecer da maneira que você planejou, ou pensou, ou simplesmente achou que ia. Pode ser na vida afetiva, profissional, familiar, esportiva, seja lá qual for. E eis que a noite só sobram lágrimas. Derrota fragorosa e trauma para toda a vida. O “quase” e o “se” martelando a sua cabeça. Quase que eu consegui, se não fosse aquele maldito, quase, quase, quase...

O meu é o seguinte:

5 de julho de 1982. Espanha. Catalunha. Parque Sarriá. Brasil x Itália. O que... Futebol não é tão sério assim??? Só você que acha que não... Era eu de uma geração que foi massacrada com as imagens da Seleção de 70 imponente, vitoriosa, indestrutível, imbatível, inesquecível e jamais superada. Eu era massacrado mesmo sem tê-la visto jogar. Uma geração que embalou o milagre econômico brasileiro, onde se tinha emprego para todos e gasolina barata. Eu fazia parte da geração que não ganhava nada, e ainda por cima tinha que entrar na fila pra comprar um saco de feijão.

Mas eis que Telê monta também um time mágico. Seria a minha redenção. Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luisinho, Junior, Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, Éder e Serginho. Do outro lado, na minha concepção, um goleiro, 9 cabeças-de-bagre e um bonde que só sabe chutar pra frente: Zoff, Gentile, Scirea, Colovatti e Cabrini, Tardelli, Oriali, Antognoni e Graziani, Bruno Conti e Paolo Rossi.

Aos cinco minutos, gol da Itália. O lazarento do bonde do Paolo Rossi. Aos 12, Sócrates empata. Aos 25, o maldito do bonde do Rossi desempata. Tensão no intervalo. Fazia sol no Rio ou fazia calor no meu coração. Será? Não é possível. O time vinha de uma vitória espetacular na Argentina do jovem Maradona. No mesmo estádio, 3 x 1. Volta o segundo tempo. O Brasil vestido de Brasil e a Itália de Itália. Camisa amarela, short azul e meia branca. E eles de azul, branco, azul.

Súbito, as veias de Falcão quase saem da derme. Uma explosão de alegria e desabafo aos 23 minutos. Driblou meia defesa e acertou um chute sagrado, inimaginável, redentor. Mas a Itália naquele dia não deixava os brasileiros comemorarem por mais de quinze minutos. De novo, o desgraçado do bonde do Paolo Rossi. Aos 30. E por mais que martelássemos, pressionássemos, cabeceácemos, chutássemos, empurrássemos nada mais resultou. Aos 43 o último suspiro. Escanteio pela direita, Oscar sobe no 78º andar cabeceia pro chão. Tudo como manda a cartilha do professor Pelé. Em 70 ela entrou, em 82... bem em 82 o Zoff pegou em cima da linha.

Saí vagando pelo bairro. Entrando na adolescência e aprendendo que era possível uma só dor ser sentida por milhões. Dor profunda, ma depois passou. Ainda fico com a garganta fechada quando me lembro, mas passou.

Bom, teve também aquele fora da namorada, o tombo de skate no meio da rua, o primeiro cheque sem fundo, a bronca tomada na frente de todos no trabalho, a batida de carro na pilastra da garagem, o porre na frente da esposa, a primeira visita a uma favela, o voto errado...

Traumas. Como viver sem eles?

4 comentários:

Poline disse...

Taí...nunca parei pra pensar quais são os meus traumas...será que eu tenho algum? Devo ter...todo mundo passa por algumas situações ruins na vida...mas daí a dizer "trauma", sei lá...acho essa palavra muito forte!
Du...adorei o seu texto!
Achei a sua cara esse seu "trauma" ter algum envolvimento com futebol! Só vc mesmo cunhadinho...hehe...
Acho que meu trauma de criança é lembrar da minha irmã fazendo careta p/ mim de noite no nosso quarto (ela vai odiar eu colocar isso aqui...hehe)...nunca vou esquecer...huahuahua...
Bjs...

Leah Santos disse...

Ontem digitei um comentário aqui e não consegui postá-lo, vamos tentar de novo...
Eu não sabia que eu e o Eduardo tínhamos isso em comum... Não posso dizer que foi um trauma, mas posso afirmar, sem dúvida, que foi uma das maiores frustrações que já tive. Nunca vou esquecer daquele dia. Tínhamos a seleção perfeita, invicta. E ao término daquele jogo eu chorei, chorei mesmo, não podia acreditar naquele resultado. Preparei minha casa pra receber parentes e amigos para comemorarmos juntos a vitória e em vez disto, ali estava eu com os olhos encharcados... Meu paizinho querido tentando me consolar dizia:"calma minha filha, é só um jogo". É claro que ele tentava me acalmar, mas não era simplesmente um jogo, era o desabafo de uma geração. Passei o resto daquele dia calada, e até hj quando me lembro sinto aquele nó na garganta...

Paulo Villela disse...

Eduardo,

Hummm, acho que é difícil alguém que não tenha passado por traumas, sejam eles profundos ou não.
Sou torcedor do Santos FC, e sofri vários, pois ia aos estádios numa época que a maré do Peixe estava muito baixa, rsss.
É claro que passei por situações difíceis, e conviver com eles não é tão fácil.
Mas precisamos encarar, enfrentar e viver. Saber lidar com seus traumas é um dos fatores psicológicos que transformam a pessoa mais madura e preparada para desafios maiores.
Sobre a Copa de 82, foi a primeira que assisti, pintamos e enfeitamos toda a rua, e não foi fácil ver o Paolo Rossi acabar com essa festa.

Você escreve bem, não desista de blogar, logo vc fará parte da panelinha, hehehe.

abs

Alexander disse...

Cara... muito legal esse tema... traumas... quem não os têm?! Bom, no lado desportivo, devido a um trauma, desisti de torcer como antes... era tarde de domingo, lá estava eu... o caneco na mão, já estava garantida a taça!! Jogo de ida vitória de 1 x 0, jogo de volta, 38 min do segundo tempo, 1 x 1... o marac lotado, e eu com uma sensação de alívio... até que uma falta na entrada da grande área me fez refletir sobre caneco.... eis que então aquele maldito daquele sérvio cobra aquela falta, que passou praticamente por dentro da trave... e 2 x 1 flamengo e o título do tri.... depois disso nada mais no futebol fez sentido... sempre que lembro, não sinto esse né na garganta, pois nunca fui tão fissurado assim em futebol, mas ainda sim reflito se hj teria eu um sentimento diferente sobre futebol se aquela bola não tivesse entrado!!
Bom, como disse Dudu, tenho outros traumas, aquele amor não correspondido, o jogador e basquete profissional que não fui, o skate que eu não andei, e agora ainda tenho mais a onda que eu não peguei, a montanha que não escalei e etc etc etc!!
Abraço Dudu!!
Beijocas Popó!!

Alex